Igreja de São Miguel, Matriz de Freixo de Espada-à-Cinta (**)
Março 11, 2010 por Castela
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A igreja matriz de Freixo de Espada-à-Cinta faz lembrar, em escala menor, a igreja do Mosteiro dos Jerónimos (*****), em Lisboa com abobadamento das naves à mesma altura. É uma igreja-salão mandada edificar por D. Manuel no local de um antigo templo gótico, inicialmente construído no reinado de D. Sancho II. A campanha do século XVI haveria de se arrastar por muito mais tempo, praticamente um século, e as obras encerraram definitivamente depois da restauração da independência, já em pleno reinado de D. João IV.
A sua arquitectura, em parte, pode ter sido gizada pelo próprio João de Castilho, que como já se disse anteriormente se casou com uma jovem de Freixo. Também não será despiciente falar em Boitaca, mestre-de-obras régio da primeira metade do século XVI e que trabalhou na Sé da Guarda (**).
O exterior da Igreja matriz de Freixo de Espada a Cinta
O exterior apresenta uma feição austera e compacta tendo misturados os estilos manuelinos e maneirista. O portal principal, ladeado por dois grandes contrafortes, é de arco abatido e sobrepujado por uma composição decorativa manuelina que termina em dois óculos, sendo estes os únicos elementos que suavizam toda a austeridade estrutural que caracteriza o monumento. No entanto os portais manuelinos são constituídos por elementos decorativos, a meu ver, rudes e banais, mas com a habitual simbologia manuelina, neste caso, rosas e alcachofras. Lateralmente tem ainda, nas fachadas Norte e Sul, mais dois portais no mesmo estilo.
O interior da Igreja matriz de Freixo de Espada a Cinta é bastante belo e vasto, dividindo-se por três naves e cinco tramos, marcados por elegantes colunas com sóbrios capiteis manuelinos, ligando-se as nervuras aos contrafortes exteriores. O primeiro tramo é ocupado pelo coro alto.
Como disse Henrique Pais da Silva, é uma igreja salão, filiado na tradição germânica, que define este tipo como «igreja de três naves de igual altura e espaço interior unitário graças também ao ritmo pausado na implantação dos suportes, pois, de o observador, onde quer que se situe no interior, captar visualmente na íntegra o volume interno; mais equitativa distribuição da luz por todo o interior do templo».
Ao longo do tempo a igreja foi sucessivamente enriquecida, e ainda que em nenhum momento se tenha secundarizado o carácter manuelino de todo o conjunto, são várias as obras modernas que ainda se podem contemplar no interior da igreja.
A meio da igreja podemos visionar um belo púlpito de ferro forjado, com o seu dossel da primeira metade do século XVI, único em Portugal, mas comum em Espanha.
16 Tábuas de Grão Vasco na igreja matriz de Freixo de Espada a Cinta
É bela é a capela-mor com abóbada manuelina, com as armas de Dom Manuel I: esferas armilares e Cruzes de Cristo, honrando a memória de quem proporcionou este belo espaço. Estes emblemas repetem-se nos fechos da nave central. Tem ainda um retábulo em talha dourada barroca. Este estende-se às duas paredes da capela, e as suas molduras enquadram dezasseis tábuas flamengas, oito de cada lado, provavelmente de 1535, da autoria de Grão Vasco, sobre temas da vida de Jesus.
Actualmente distribuem-se de modo aleatório, já sem qualquer relação com a organização que assumiam no retábulo original. Infelizmente actualmente estas não podem ser contempladas, porque a capela-mor se encontra a ser restaurada, esperemos com qualidade e brevidade.
Segundo Reinaldo dos Santos, as tábuas pertencerão à fase de transição do artista entre as suas obras de Lamego e Viseu.
Os absidíolos têm também retábulos de barrocos e são abobadados. No do lado esquerdo, um interessante túmulo manuelino. Nas paredes que separam as três capelas existem dois retábulos de talha com nichos e algumas imagens como é o caso de um bonito São Pedro.
Destaco ainda o fragmento em talha dourada, figurando os quatro evangelistas, que actualmente se encontra colocado no altar da capela direita, poderia ter feito parte da estrutura original do retábulo. Trata-se de uma peça de autoria provável do escultor e entalhador de origem flamenga, Arnau de Carvalho, que trabalhou com os pintores de Viseu e fez uma série de retábulos para igrejas da região.
A campanha barroca do reinado de D. João V privilegiou essencialmente a renovação do retábulo-mor, em talha barroca estilo nacional, a construção do coro e a remodelação da sacristia, mantendo os elementos essenciais manuelinos que chegaram praticamente íntegros até aos nossos dias.
A igreja matriz de Freixo de Espada-à-Cinta, vale a sua deslocação a localidade, principalmente quando os painéis dos retábulos estiverem disponíveis. Esta igreja é mais um dos belos monumentos portugueses à nossa disposição, numa região deprimida e arredia do desenvolvimento, que bem merece a sua demorada visita.
Fonte de Informação:
Sousa, Fernando de e Pereira, Gaspar Martins- Alto Douro Superior;
Novos Guias de Portugal, Editorial Presença, 1988, Lisboa.
Vários autores – “Manuelino à descoberta da arte do tempo de Dom Manuel”, Editora Civilização 2001.
Gil, Júlio e Calvet, Nuno-”As Mais Belas Igrejas de Portugal, Editora Verbo, 1989.


